domingo, 31 de outubro de 2010

Por exemplo (V)

O tempo, esse falso lento, que Deus o perdoe.

Cabeça

Antes de regressar, perguntou se podia tocar as mãos dela. Para quê, mas são horríveis e isto e aquilo mas tocou. Quando tocou, porém, perdeu a cabeça. A cabeça caiu-lhe do corpo e bateu com estrondo no chão da sala, rolando atabalhoada até à base do sofá.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Uma estrada no meio da rua

E há uma estrada no meio da rua. Uma estrada que nunca mais acaba numa rua que, sem surpresa, não vai longe. O que se sabe é que a rua não vai longe e a estrada nunca mais acaba. Há moradias com cancelas, jardins cuidados, cães de família à solta, carros de família aparcados, caixas de correio disponíveis, tartes de maçã à janela, cortinados floridos, longas mesas de jantar nas salas-de-estar, camas de casal nos quartos, andorinhas nos telhados e gatos nos passeios. Há famílias inteiras, com tudo a que reclamam direito, na rua que não vai longe. Há famílias inteiras que nunca mais acabam na rua que não vai longe. 

Inolvidáveis

 Audrey Tautou

 Keira Knightley

 Marion Cotillard

 Kelly Reilly

Mia Clarke

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Por exemplo (IV)

O café, por exemplo, que Deus o perdoe.

A bicicleta da aldeia

Havia uma bicicleta a viver na praceta da aldeia. A bicicleta era uma bicicleta, a praceta era uma praceta e a aldeia era, garanto-vos, uma aldeia. Até aqui, nada de extraordinário. Havia miúdos que viviam na aldeia e frequentavam a praceta. Com efeito, conheciam a bicicleta. Até aqui, nada de extraordinário. A bicicleta não tinha dono ou, pelo menos, ninguém a havia reclamado como pertence. Com efeito, os miúdos da aldeia montavam a bicicleta por divertimento. Passa-se que, a cada giro, apenas regressava a bicicleta. Os míudos montavam a bicicleta da praceta da aldeia e desapareciam no giro. A bicicleta, essa, continuava a viver na praceta da aldeia à espera de perder miúdos nos giros da idade. Até aqui, nada de extraordinário. 

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Portanto

No Japão, corria o boato que existia um país chamado Japão e cujos habitantes eram, e isto nunca foi uma certeza, japoneses. O boato nasceu no século XV, num evento da corte por altura de Maio, e cedo se prolongou no espaço e no tempo até se tornar uma história veiculada de avós para netos, por altura de histórias. Houve, então, tantos avós, netos e histórias que o Japão e os japoneses foram uma realidade que ninguém via mas toda a gente conhecia. Por altura de hoje, no Japão, não há avós, netos ou histórias. Há apenas o Japão e os japoneses. A história venceu, portanto. 

Por exemplo (III)

A noite, por exemplo, que Deus a perdoe. Vem todos os dias, como as mulheres fáceis.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Um homem livre

Houve, em tempos, um homem que negou a adjectivação e todo o mundo lhe pareceu. Os filhos nunca mais lhe foram distraídos. Os livros nunca mais lhe foram longos. As mulheres nunca mais lhe foram bonitas. A velhice nunca mais lhe foi ameaçadora. Os dentes nunca mais lhe foram amarelos. O sexo nunca mais lhe foi bom. O sexo nunca mais lhe foi mau. O sexo nunca mais lhe foi curto. O descanso nunca mais lhe foi necessário. O carro nunca mais lhe foi rápido. A vida nunca mais lhe foi madrasta. Se o leitor me permite o resumo, houve em tempos um homem que nunca mais, para sempre.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Consciente

Como compromisso, esta será a única intervenção pessoal e consciente deste espaço. Também por isso, as minhas largas e sinceras desculpas.

Por exemplo (II)

A boca, por exemplo, que Deus a perdoe.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Episódios da próxima cama (I)

- Chama-me nomes feios!
- Ester, Joaquina, Lúcia...
- Parvo. Chama-me nomes feios, diz-me coisas porcas enquanto fazemos amor.
- Marialva.
- Estás a falar a sério? É o mais feio que consegues?
- Filha-da-puta!
- Preferia só puta. Insultar a minha mãe não me excita por aí além.
- Puta!
- Agora não vale. Já só consigo pensar na minha mãe. Tens alguma coisa contra a minha mãe?
- Não.
- Jura!
- Juro. Não tenho nada contra a tua mãe.
- Ias para a cama com a minha mãe?
- Não.
- E com a minha irmã?
- Também não.
- Não acredito. De certeza que ias para a cama com a minha irmã.
- Talvez. Se não te importasses, talvez fosse para a cama com a tua irmã.
- Preferia não saber.
- Então está bem.
- Está bem o quê?
- Ia para a cama com a tua irmã sem que tu soubesses.
- Sai de cima de mim.
- Porquê?
- Porquê?! Porque eras capaz de ir para a cama com a minha irmã e não me contar.
- Mas disseste que preferias...
- Preferia que não fosses para a cama com a minha irmã!
- Então não vou. Aliás, nunca fui. Nunca fui para a cama com a tua irmã, ou com a tua mãe, ou com qualquer outra pessoa desde que estou contigo.
- Se fosses, contavas-me?
- Contava.
- Preferia não saber.
- Está bem.
- Está bem o quê?
- Boa noite.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Um castanheiro no areal

Nas primeiras horas de um 20 de Agosto, quem chegou àquela praia viu um castanheiro adulto e firme no areal. Juntaram-se pessoas à sua volta. Ao ritmo que o sol se erguia, mais pessoas se juntavam à sua volta. Dizia-se que veio gente de longe para ver o castanheiro no areal. Os repórteres das televisões assim o adiantavam: - Veio gente de longe para ver o castenheiro no areal. Já de tarde, e com uma multidão que enchia a praia só para ver o castanheiro no areal, a árvore largou um ouriço. Demorou, e os repórteres também o disseram porque houve quem contasse, 7 segundos a percorrer o ar desde o topo do castanheiro à areia. Foram 7 segundos porque a cada segundo de queda tombava uma pessoa no areal. No final, estavam sete pessoas e um ouriço caídos. Quem não tombou, voltou a casa e no dia seguinte já não encontrou um castanheiro no areal. O Outono chegou pouco depois.

Por exemplo (I)

Os elevadores, por exemplo, que Deus os perdoe.

Como o pai

Tinha olhos castanhos e o desencanto, como o pai. Da mãe, herdara cinco mil euros. Todos os dias enchia uma mala com roupa para uma semana. Quando deixou de ter roupa, enchia as malas com água. Quando deixou de ter malas, enchia garrafas com água para uma semana. Quando deixou de ter água, enchia garrafas com terra. Quando deixou de ter garrafas, comia terra para uma semana. Quando deixou de ter terra, comia legumes. Houve um dia em que lhe nasceu uma alface entre o peito e a barriga. Consta que morreu pouco tempo depois e, felizmente, não deixou nada por encher. 

43 minutos

Sentava-se todos os dias, durante 43 minutos, numa repartição das finanças à espera que alguma das finanças de algum dos homens fosse por si repartida.

Naquele tempo

Era um comboio que ligava duas cidades. Tinha seis carruagens, por vezes cinco ou menos, por vezes sete ou mais. Não tinha, a bem da verdade, um número exacto de carruagens e não era, afinal, um comboio. Era um corvo que ligava duas cidades. Cidades distantes onde ninguém vivia. Não eram, a bem da verdade, duas cidades. Eram duas latas de atum. Ou era uma lata de atum, apenas. Uma lata de atum e um corvo. Era uma lata de atum e um corvo naquele tempo.